Somos todos personas do palco existencial. Todos coadjuvantes da épica história da humanidade. O que pretendo propor é quanto enquanto personagens somos interessantes. Será que Amélie Poulain, por exemplo, seria tão interessante como uma pacata dona de casa denominada de Amélie Quincampoix?
As melhores histórias nos são contadas em algumas dezenas de páginas ou em poucas horas de filme. Todos os nossos mais queridos personagens vivem em um universo compacto e paralelo o resto das suas vidas. Nossos mais bonitos ícones influenciam nossas próprias vidas a ponto de construirmos em nós mesmos os traços mais característicos e marcantes para nossa existência. E construímos nossas personas como um ator elabora sua interpretação de uma cena.
Todos os personagens são construídos à partir da construção referenciada e esteriotipada do mito.
Se "Foulcaut desloca o conceito de mito, que antes designava uma representação coletiva mais ou menos irracional. Foulcault fala dos mitos que condicionam “as possibilidades míticas de uma cultura”. Um mito é uma ficção, só se opõe às ficções que desmitificam; uma ficção é um mito se implica no Mito no sentido platônico, se sustenta no mito da origem que direciona e contém a verdade imutável, da essência, da existência de uma palavra fundadora. As ficções de Foulcault fabricam verdade e experiências novas, enquanto que a eficácia dos mitos é a de manter a continuidade das experiências; novos mitos são produzidos, mas continuam sendo mitos do Mito, de que devemos olhar para trás para prever o futuro, porque a história seria contínua, a natureza do homem imutável. Os mitos da história tem seu fundamento no próprio modo de se fazer a história. No entanto, diz Foulcaut em L’arrièrefable, “Nenhuma época usou todos os modos de ficção (...); exclui-se sempre algumas delas (...); outras, em contrapartida são privilegiadas e definem uma norma.” De um lado a ficção só é eficaz se respeita as condições míticas, mas por outro é possível uma desmitificação. Isto porque a ficção hoje para ser eficaz deve se colocar como fundada e fundadora, e a história se coloca assim. Só se sustenta o Mito com a continuidade da história; com princípios de ruptura na história, faz-se do Mito um mito. Quanto à possibilidade de uma desmitificação por completo, nossa sociedade está começando a funcionar sem Mito. “A pretensão fundadora é pejorativa porque inútil, a sociedade funcionaria sem fundamento.” (Karina Senra Poignard — cadernos de filosofia contemporânea número 2, +1999).
“O homem é o criador de valores, mas esqueceu sua própria criação”.
A vida humana nasceu do medo e da fuga da natureza. A religião surgiu de rituais para aplacar os elementos naturais. A transposição dos elementos naturais à “criação” de seres trans-físicos e simbólicos proporcionou aos seres humanos florescerem sem esse medo.
“L’homme qui médite est un animal dépravé” - Rousseau.
O ser não pode confrontar a realidade imediatamente (tête a tête), pois ela o perturba e o assusta; então, ele vive em uma dimensão mais ampla, onde o pensamento é o caminho deste universo simbólico. Entre o mundo das vísceras e o mundo dos desejos, dos instintos, dos sonhos e da fantasia está o ser humano. São dois sistemas de universo onde a linguagem, o mito, a arte e a religião fazem parte do universo simbólico; em contraposto ao universo meramente físico.
“A razão é um termo muito inadequado com o qual compreender as formas de vida cultural do homem em toda sua riqueza e variedade. Mas todas essas formas são formas simbólicas. Logo, em vez de definir o homem como animal rationale, deveríamos defini-lo como animal symbolicum”. (Ensaio sobre o Homem - Ernest Cassirer, +1944).
Ao fazermos isso, estamos nos encaminhando para o entendimento do ser e de sua civilização.
Se voltarmos ao exemplo inicial, o tal fabulaso destino de Amélie é na verdade seu destino comum. Seu encontro com Nino nos remete à construção simbólica de seu destino. Cada microcosmo constrõe o seu próprio e à sua maneira a partir da cena final. O meu pós-final particular é o seu casamento com o Sr. Quincampoix e meu total desinteresse por uma personagem com destino; afinal a Amélie é mil vezes mais interessante em busca dele.
O ser humano é simbólico. Tudo em nossas vidas são signos. Recheados de signos e interpretantes vorazes que são, por suas vezes, outros signos.
Quando o autor constrói a mitologia de seu personagem ele jamais estará criando uma história individual, pois as histórias são de todos e para todos. O personagem exposto já não é mais seu e fica sujeito às várias interpretações possíveis além do fim da própria história a ponto da história não ter mais fim. Se não sabemos para onde o personagem vai então, de onde ele vem?
Gilles Deleuze nos introduz ao campo de imanência que é algo como o lugar comum e ponto de origem de todas as idéias, de todas as coisas e da própria vida ("imanência da imanência" de Deleuze). E assim, pela consciência deste campo trasncede-se a própria existência. (A imanência: uma vida - Gilles Deleuze, +1995).
Os personagens, assim como as histórias e as histórias delas são muito maiores que o próprio autor. O autor é apenas um animal que escreve (ou descreve) para analfabetos, cegos e dementes, como nos indica o próprio Deleuze .
É possível supor que os verdadeiros humanos são os personagens, livres, imateriais, quase espirituais. talvez até imortais. Amélie pode estar aqui, amarrando nossos cadarços, agora mesmo.
Como também é possível supor que os verdadeiros humanos são construídos como se compõe um personagem. Transpomos à nossa própria persona valores simbólicos que consideramos como modelos. E estes modelos são interpretados gerando outros signos de nós mesmos e entre nós mesmos, continuamente.
A essência una e singular da existência é a produção imanente de signos e interpretações singulares de signos dos signos.
E a este "moto contínuo" imanente de signos denominamos vida.
vídeos de apoio (do youtube):